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Um parceiro de ensaio que fala a sua língua

14 de junho de 2026 · 4 min de leitura

Elias Munk
Elias Munk· 14 anos de atuação

Por muito tempo, blablabla lia suas cenas em nove idiomas. Se você trabalhava em um deles, ótimo. Se não, você ficava com uma voz fazendo o melhor que podia com sua língua, mas com a boca errada. Pensa num ator em Seul tentando ensaiar uma cena em coreano contra um leitor que soa vagamente americano. Dá pra usar. Mas nunca dá pra esquecer que está lá.

Isso me incomodava mais do que eu deixava transparecer. Eu construí essa ferramenta em dinamarquês primeiro, pra mim mesmo, e depois fiquei de olho enquanto atores em lugares onde eu nunca tinha feito audição tentavam fazer funcionar numa língua que o app ainda não falava de verdade.

Então continuamos. O catálogo passou de oitenta vozes e elas leem em mais de setenta idiomas. Está disponível em todo lugar, em todas as lojas, com o próprio app traduzido para dezenas de idiomas. blablabla foi se tornando mundial quietinho, do jeito que a maioria das coisas reais acontece. Sem banner, sem alarde. As vozes foram chegando.

Por que a outra voz importa mais do que você pensa

Você não ensaia no vácuo. Você ensaia contra o que ouve.

Quando a outra fala volta no tempo errado, ou cai a ênfase na sílaba errada, o seu ouvido se ajusta a isso sem te consultar. Você aprende a sincronizar sua fala com um ritmo que não vai estar na sala no dia. Parece normal enquanto você está fazendo. Aí você chega na audição, uma pessoa real lê com a cadência dela, e algo fica meio que fora do tempo, e você não consegue dizer por quê.

Um leitor no seu próprio idioma resolve o que você nem sabia que estava errado. As pausas caem onde as pausas realmente caem. As perguntas sobem como as perguntas sobem naquela língua. Você para de gerenciar o leitor e começa a escutá-lo, que é o ponto central de tudo. A outra voz deve desaparecer para que a sua fala seja a única coisa na sala.

Mais de oitenta vozes, na língua em que você trabalha

O quadro atual: mais de oitenta vozes, mais de setenta idiomas. Cada personagem da sua cena recebe uma voz distinta, escolhida pra combinar. Não é um narrador monótono fazendo todos os papéis no mesmo registro.

Setenta é só um número na página, então aqui vai o que isso significa na prática. Dinamarquês, sueco, norueguês, finlandês nos países nórdicos. Alemão, francês, italiano, espanhol, holandês, polonês no resto da Europa. Tcheco, eslovaco, húngaro, romeno, croata, russo, ucraniano. Árabe, turco, hebraico, hindi, tâmil. Japonês, coreano, mandarim, indonésio, malaio, vietnamita, tailandês. Português nos dois lados do Atlântico. Essa é a versão resumida.

Então se você está ensaiando na sua língua, as chances são muito boas de que ela está aqui. E o catálogo continua crescendo, porque essa é a parte do app que eu mais quero ver completa.

O idioma certo não basta. Você precisa do canto certo dele.

Essa é a parte que me deixa com uma certa satisfação, então vou dizer com clareza e seguir em frente.

Acertar o idioma é o mínimo. Um ator percebe em dois segundos se uma voz é do mundo dele ou de um turista de passagem. Uma cena parisiense lida em francês do Quebec está errada de um jeito que nenhum não-ator notaria e todo ator notaria. Então o catálogo vai um nível mais fundo do que apenas o idioma.

Francês vem em parisiense e quebequense. Português em brasileiro e europeu. Mandarim do continente e de Taiwan. Árabe em golfo, levantino e egípcio. Inglês em americano e britânico. O leitor não fala só a sua língua. Ele fala a partir de onde, mais ou menos, a sua cena está ambientada.

A maioria das ferramentas de ensaio oferece inglês e talvez algumas vozes europeias por cima. Eu entendo o porquê: é muito trabalho para atores que vão auditar principalmente em inglês mesmo. Mas tem muita gente que não está auditando em inglês, e "parecido o suficiente" é uma coisa estranha de pedir a alguém cuja tarefa inteira é a diferença entre parecido e exato. Então não paramos nos idiomas fáceis. Essa é a aposta, na verdade, e é uma aposta discreta. Preferimos que o leitor simplesmente soe certo do que ficar explicando como isso é inteligente.

Se trabalhar numa língua que não é a sua primeira tem seus próprios desafios específicos, escrevi sobre isso em separado, em ensaiando cenas numa língua que não é a sua.

Fazer o casting das outras partes

Na prática você mal pensa em nada disso. Você importa a cena, diz qual personagem é o seu, e os outros personagens são escalados pra você, combinados por idioma e por se o papel parece um homem ou uma mulher. Na maior parte do tempo é isso.

Quando não é, você abre a lista de vozes e refaz o casting. Ouve algumas, escolhe a que soa como a pessoa contra quem você está jogando. Um irmão deve soar como um irmão, não como um folder de agência. O quadro completo de como isso se encaixa num ensaio está na página de funcionalidades.

Aí você roda a cena. As outras vozes falam as falas delas na sua língua, num sotaque que pertence à sua história, e esperam, em silêncio, você terminar as suas. O tempo que for necessário.

Aquele ator em Seul tem um leitor em coreano agora. O de São Paulo tem um leitor brasileiro, não um de Lisboa. As pausas caem onde deveriam. Ninguém está mais fazendo impressão da língua de ninguém. Era só isso que eu sempre quis que as vozes fizessem: sair do caminho e deixar você atuar.

Se quiser o quadro mais amplo de trabalhar sem parceiro de cena, está tudo no guia completo de ensaiar sozinho.

Elias Munk

Elias Munk é um ator dinamarquês e criador do blablabla. Quatorze anos na área. Criou o blablabla porque o ensaio não deveria ser a parte difícil de ser ator. A performance sim.

blablabla lê as falas dos outros personagens e espera pela sua.

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