blablabla
← Todos os artigos
audicaotecnica

Como preparar uma audição que ficaste a saber ontem à noite

3 de abril de 2026 · 4 min de leitura

Elias Munk
Elias Munk· 14 anos de carreira

O telemóvel vibra às 21h14. É o teu agente. Callback amanhã, às 10h. Os sides estão em anexo. Quatro páginas. Nunca viste o argumento. Toda a gente em casa já está a dormir.

Já me aconteceu mais vezes do que gostaria de admitir. As primeiras, entrei em pânico e fiquei acordado até às 2h a martelar as réplicas na cabeça. Entrei na sala exausto, ensaiado a mais, travado. Não correu bem. Desde então aprendi uma coisa: os atores que marcam com audições de véspera não tentam ser os mais preparados na sala. Tentam ser os mais presentes.

Aqui está o plano de triagem que uso agora. Cerca de noventa minutos de trabalho concentrado, e depois cama.

Os primeiros quinze minutos: ler e pesquisar

Lê a cena duas vezes. Não as tuas réplicas. A cena inteira. Não sublinhes nada. Não comeces a pensar em como dirias as coisas.

Na primeira passagem, absorve. Qual é a situação? Quem são estas pessoas uma para a outra? Onde estão e o que aconteceu mesmo antes desta cena começar?

Na segunda passagem, começa a fazer perguntas. Porquê esta conversa, neste momento? O que aconteceria se a tua personagem simplesmente saísse da sala? Se nada mudasse, ainda não encontraste os stakes.

Enquanto lês, faz uma pesquisa rápida sobre o projeto. É uma longa? Uma série? Qual é o tom? Se houver trailer ou sinopse, vê. Dois minutos de contexto sobre o mundo que vais habitar valem mais do que vinte minutos extra a decorar réplicas.

Os próximos vinte minutos: perceber o que está realmente a acontecer

Esta é a parte que a maioria das pessoas salta quando está com pressa, e é a que mais importa. Tens de analisar a cena mesmo quando o tempo é curto. Especialmente quando o tempo é curto.

Três perguntas. Responde a cada uma numa só frase.

O que quer a tua personagem da outra pessoa nesta cena? Não em geral. Agora. Nesta sala. Transforma isso num verbo.

O que está no caminho? Algo impede a tua personagem de conseguir o que quer. A resistência da outra pessoa, um segredo, mau timing, orgulho. Dá-lhe um nome.

Onde vira a cena? Quase sempre há um momento em que a dinâmica muda e as coisas não podem voltar ao que eram. Encontra-o. É a charneira da cena, e é aí que o diretor de casting vai estar mais atento.

Se conseguires responder a estas três perguntas, tens um ponto de vista. É isso que levas amanhã. Não uma representação polida. Uma perspetiva.

Os próximos trinta minutos: pôr em pé

Agora corres em voz alta. Voz cheia. Não um murmurar sentado à secretária. Levanta-te, abre a boca e diz as réplicas como um ser humano numa sala com outro ser humano.

Se tens alguém que possa ler a outra parte, pede. Se são 21h45 de uma terça-feira e toda a gente que conheces está a dormir ou indisponível, usa uma app de ensaio como o blablabla. De qualquer forma, precisas de ouvir as réplicas da outra personagem ditas em voz alta. As tuas deixas importam. As tuas respostas saem do que a outra pessoa diz, e esse ritmo de pergunta-resposta tem de estar no teu corpo antes de entrares na sala.

Corre a cena três ou quatro vezes. Não pares para corrigir. Deixa estar tosco. Estás a construir a forma da cena, não a fixar leituras específicas de réplicas. Se notares uma secção que parece morta, é provavelmente porque não sabes o que queres nesse momento. Volta às três perguntas.

Os próximos quinze minutos: gravar

Corre a cena mais uma vez. De pé. Grava no telemóvel. Só áudio serve, mas vídeo é melhor porque vais apanhar hábitos físicos que não notas por dentro.

Vê uma vez. Não para julgar. Para notar. Estás a apressar a viragem? A jogar numa nota só durante toda a cena? A perder a última palavra de cada frase? Escolhe a única coisa que te incomoda mais e ajusta. Não tentes corrigir tudo. Um ajuste.

Se quiseres mais detalhe sobre como trabalhar as réplicas com eficiência, há uma análise mais longa em como os atores aprendem o texto. Mas a esta hora, o objetivo é familiaridade, não perfeição. Queres estar suficientemente seguro para conseguir ouvir e responder na sala, não recitar de cor com um olhar vidrado.

Depois, dormir

A sério. Pousa os sides. Define o alarme. Vai dormir.

O sono consolida a memória. O teu cérebro ensaia literalmente o material enquanto estás inconsciente. A ciência sobre isto não é ambígua. Um ator que prepara noventa minutos e dorme sete horas supera um ator que prepara cinco horas e dorme três. Sempre.

De manhã, lê a cena uma vez com o café. Corre em voz alta uma vez no duche ou no caminho. É tudo.

O que não fazer

Não martelares as réplicas até às 2h a tentar ficar off-book. Não vais conseguir, e vais estar demasiado cansado para ouvir. Ouvir é o trabalho todo.

Não vejas quatro episódios da série para "apanhar o tom". Vais acabar a imitar a interpretação de outra pessoa em vez de trazer a tua.

Não passes trinta minutos em agonia com o guarda-roupa. Veste algo que sugira a personagem sem parecer fantasia. Umas calças de ganga e uma camisa, ou umas calças de ganga e uma t-shirt, cobre noventa por cento das audições.

Não reescreves a cena na cabeça. Joga o que está na página. Se o texto parecer desajeitado, esse não é o teu problema para resolver na sala.

O que realmente marca

Os diretores de casting veem dezenas de atores num dia assim. Alguns estão mais preparados do que tu. Provavelmente a maioria, honestamente. Tiveram dois dias com o material em vez de treze horas. Estão mais off-book. Fizeram escolhas mais trabalhadas.

Mas não são as escolhas trabalhadas que marcam. São as escolhas claras. Entra a saber o que queres, onde a cena vira e o que não estás a dizer. Está disposto a ouvir o outro leitor e a responder de verdade em vez de representar para ele. É isso que as audições de última hora testam melhor do que qualquer coisa: consegue este ator aparecer com um ponto de vista e manter-se vivo na sala?

A resposta a essa pergunta não tem nada a ver com quantas horas tiveste com os sides.

Elias Munk

Elias Munk e um ator danes e o criador do blablabla. Catorze anos no oficio. Criou o blablabla porque o ensaio nao devia ser a parte dificil de ser ator. A interpretacao e que devia.

blablabla le as replicas das outras personagens e espera pelas tuas.

Duas cenas com voz, gratis. Sem registo.

Download para iOS →