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Como aprender o texto com ADHD (ou dislexia)

25 de junho de 2026 · 4 min de leitura

Elias Munk
Elias Munk· 14 anos a representar

Há um pânico silencioso muito específico que aparece quando tentamos aprender o texto com ADHD ou dislexia. Lês quatro réplicas, levantas os olhos da página e não fica nada. Lês de novo, tapas a página. Continua sem nada. E por baixo fica o pensamento que nunca dirias na sala de espera: se calhar não fui feito para isto.

Já ouvi versões disto de muitos atores que aprendem o texto com ADHD ou dislexia, e as palavras saem quase todas iguais. Sinto-me a falhar quando nada fica. Estou a trabalhar e a página continua a escorregar. A coisa de que mais gosto começa a parecer prova de que não consigo.

Por isso, antes de qualquer técnica, o que mais importa saber: quase nunca és tu. O conselho que toda a gente dá, ler vezes sem conta até ficar, é das piores instruções possíveis para um cérebro que não arquiva informação a olhar para ela. A maioria dos conselhos sobre aprender réplicas parte da ideia de que memorizas a ler. Se não é assim que a tua cabeça funciona, o conselho não está errado, está só dirigido a outra pessoa.

O truque que muitos atores já usam

Pesquisa qualquer fórum de atores sobre dislexia ou ADHD e a mesma saída continua a aparecer. Gravas as réplicas de todas as outras personagens e deixas um espaço onde entram as tuas. Depois ouves e preenchas o espaço em voz alta. Fazes isso a caminhar, na cozinha, no chão com os olhos fechados. A réplica aparece porque a deixa aparece.

Funciona porque deixa de ser uma tarefa de leitura. Não estás a descodificar texto e a tentar guardá-lo ao mesmo tempo. Estás a ouvir e a responder, que é afinal o que é representar. As palavras prendem-se a um momento em vez de a um sítio na página.

Porque ler réplicas na página falha com ADHD ou dislexia

A leitura em silêncio pede a um único sistema que carregue dois pesos ao mesmo tempo. Tem de transformar os sinais em palavras e tem de manter o significado tempo suficiente para o guardar. Se tens dislexia, a descodificação gasta a maior parte do que tens, e sobra pouco para memorizar. Se tens ADHD, uma página silenciosa não dá à tua atenção nada a que se agarrar e o foco escorrega em segundos. De um modo ou de outro, as réplicas nunca chegam ao sítio onde a memória se forma.

Não é um problema de força de vontade nem um sinal de falta de talento. É uma incompatibilidade entre um método e um cérebro. Muda o método e o mesmo cérebro funciona bem.

A forma mais rápida de aprender o texto com ADHD ou dislexia

Dizer as réplicas em voz alta enquanto te moves não é um truque simpático. Tem investigação por trás. O trabalho sobre o que os psicólogos chamam o efeito de produção, incluindo um estudo de 2015 na revista Memory, mostrou repetidamente que dizer palavras em voz alta em vez de as ler em silêncio as torna mais fáceis de memorizar. Para um cérebro que já tem dificuldade com a página silenciosa, essa diferença separa uma réplica que fica de outra que já não está de manhã.

Por isso levanta-te do sofá. Passeia pelo corredor. Ensaia as réplicas enquanto tens as mãos ocupadas com outra coisa. Corre a cena em passagens curtas espalhadas pelo dia em vez de uma sessão longa de enfiada, e deixa-te dormir entre elas, porque é a dormir que as réplicas assentam mesmo. A paciência aqui não é uma virtude, é uma técnica. O ator que corre a cena cinco vezes em dois dias calmos lembra mais do que aquele que a corre vinte vezes em pânico na véspera.

Onde entra o blablabla

O truque da gravação tem um problema real: fazer a gravação. Tens de ler cada parte das outras personagens para o telemóvel, adivinhar a duração de cada espaço e repetir tudo quando os sides mudam. É maçador o suficiente para a maioria das pessoas experimentar uma vez e desistir.

Criei o blablabla exatamente para eliminar esse tédio. Importas a cena, dizes qual é a tua personagem e ele diz todas as outras partes em voz alta com a voz própria, depois fica à espera no espaço o tempo que precisares. Sem temporizador, sem página para leres enquanto representas. Podes fechar os olhos e responder às deixas. É a mesma ideia de gravares as réplicas dos outros e deixares um espaço para ti, só que saltas a parte maçadora de fazer a gravação, e o espaço dura exatamente o tempo que a tua réplica precisa.

Quero ser cuidadoso no que afirmo. O blablabla não é um tratamento para ADHD ou dislexia, e nunca o venderia como tal. É uma ferramenta de ensaio que coincide com a forma como muitos destes cérebros já trabalham. Ouve, move-te, responde, corre de novo sem vergonha. É a promessa toda. Para alguns atores é também toda a diferença.

Nada disto faz o trabalho desaparecer. Ainda tens de fazer as passagens. Mas as passagens deixam de parecer prova contra ti, e para muitos atores é essa a coisa silenciosa que estava a matar o amor pelo ofício.

Se queres as técnicas de memória que estão por baixo disto, as que tratam de jogar intenções e ancorar réplicas a sentimento real e que ajudam qualquer cérebro, escrevi-as em como os atores aprendem mesmo o texto. Quando o tempo aperta, como ficar off-book em 48 horas tem uma sequência mais calma do que o pânico. E o quadro completo de ensaiar sozinho, do trabalho de cena à gravação, está em o guia completo para ensaiar sozinho.

Perguntas frequentes

Elias Munk

Elias Munk é um ator dinamarquês e o criador do blablabla. Catorze anos no meio. Fez o blablabla porque o ensaio não devia ser a parte difícil de ser ator. A interpretação é que devia.

O blablabla diz as réplicas das outras personagens e espera pelas tuas.

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